Ah, o espelho! Imagine-se um mundo sem espelhos. Um mundo de águas belas, mas turvas e foscas. Um mundo onde não houvesse superfície ou material capaz de refletir a luz de forma a nunca enxergarmos como parecemos. Quão diferente não seria esse mundo! Provavelmente nosso tato seria um pouco mais desenvolvido, já que só assim poderíamos descobrir nosso rosto. Nossa imaginação seria mais fértil, já que nunca poderíamos "ver" nossa imagem como um corpo inteiro como ele "realmente" é.
Aliás, o que seria esse "ver"? O que seria "realmente"? A Física diz que não vemos os objetos, e sim a luz refletida sobre eles. Oras, se realmente é isso, por que insistimos em falar em "ver", em "real"? Ao assistir a televisão, vemos a luz refletida nela e a luz que ela própria emite. Mas o que é "televisão"? "Televisão", antes de mais nada, é uma palavra. E palavras referem-se a conceitos que exprimem características constantes de um determinado fato ou fenômeno. Agora, se partirmos do posto que nada é substancialmente igual a outra coisa, e que a própria "coisa" é definida física, química e socialmente, como podemos usar uma mesma palavra para coisas que são, por definição, diferentes entre si? Se existem televisores das mais diversas formas e tipos, então a palavra exprime, mais que a forma, a sua função: no limite, e até hoje, uma caixa que transmite imagens e sons.
Mas já que o que "vemos" é algo concreto e "função" é um conceito abstrato, voltemos à discussão sobre a forma. Ao que nos consta, o ser humano consegue enxergar 3 dimensões: largura, comprimento e profundidade. Tudo nos parece ter forma e temos grande noção de espaço. Entretanto, por barreiras físicas, ou seja, substanciais, não conseguimos enxergar a tela e o fundo da televisão ao mesmo tempo. Mas não nos limitemos ao exterior. Imagine-se um abacate fechado, sem cortar. À princípio, nunca conseguiremos "ver" a casca, a carne e a semente ao mesmo tempo!
Se o que consideramos como visão humana fosse determinada nesses termos, então chegaríamos à conclusão de que não "vemos" nada, posto que é logicamente impossível ver o mundo e seus objetos em sua totalidade. Essa limitação física - e químico-biológica, já que a visão não é nada mais que impulsos elétricos correndo e reações químicas no nosso cérebro! - dá uma grande lição às Ciências Sociais e ao ser humano como um todo, resumida em uma palavra: relativismo.
E isso nos leva de volta ao nosso mundo com espelhos. Nele, as pessoas vêem tudo de acordo com o seu ponto de vista, determinado diretamente por seu entorno social sob três perspectivas relacionadas à quarta dimensão, que dizem ser o tempo. Ou seja: baseiam suas ações na compreensão que têm sobre o mundo passado (história), o mundo presente (circunstância) e o mundo futuro (expectativa). Se dizem que "não podemos mudar o passado, nem prever o futuro", podemos fazer o contrário: pre-ver o passado e mudar o futuro. E para isso o espelho é fundamental. Não o espelho concreto, exterior, feito de vidro e prata, mas o interno, feito de músculo humano. Se, como vimos, tudo é uma questão de ponto de vista, a aparência não diz nada, e o reflexo muito menos. Em contrapartida, a reflexão é quem é capaz de nos dizer tudo que achamos que sabemos sobre o mundo exterior.
O processo de reflexão é longo, árduo e difícil, principalmente se bem sucedido. Afinal, é muito melhor viver num mundo de sonhos e ideais do que ver a realidade em toda sua complexidade, principalmente pela conclusão da impotência do ser humano em relação a este mundo vasto e hostil. Se podemos atuar para mudá-lo, a reflexão é o segundo passo. O primeiro é a consciência da limitação dos sentidos, e foi o que fizemos neste texto. O terceiro passo é a ação. Mas demos um passo de cada vez. O propósito aqui a partir de agora é este é dar aos poucos este segundo passo: refletir.
Mas enfim. Fundamos nossa mentes e filosofemos então neste mundo cheio de espelhos...
quinta-feira, 12 de abril de 2007
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4 comentários:
Belo texto garoto ... mto interessante ...
parabéns pela sua desenvoltura
Só não concordo com a segunda parte de "a aparência não diz nada, e o reflexo muito menos".
Acredito que o reflexo, tanto o do espelho propriamente dito, quanto o interior que você disse são produtos de uma interpretação primária da nossa própria consciência. Foi o quase o que eu quis dizer ontem com o "olhar treinado".
Got it?!
Bitocas,
Ju Cozar
Meu ponto, Ju, é que, se "tudo" é uma questão de ponto de vista, então a aparência e o reflexo dizem alguma coisa para mim, e dizem OUTRA coisa para você, e assim por diante. LOGO, não dizem "nada" para o TODOS ao mesmo tempo, posto que não há "nada" que seja universal sob esta óptica. Pus "nada" entre aspas agora (e deveria ter posto no texto) porque realmente "nada" e "tudo", "todos" e "ninguém", são a mesma coisa e só significam alguma coisa se usados hiperbolicamente...mas vou tratar disso depois...! O ponto que defendo é que a aparência não nos diz nada se supomos existir uma "essência" ou uma "verdade". Mas logo logo eu vou chamar o Materialismo Histórico para debater isso...hehehe
Bom texto mesmo João... Classea!
Só cuidado com os perigosos relativismos...
Suas palavras de pronto me incitaram um dito:
"O que importa não é o que as coisas são, mas sim o que elas fazem."
Temos que refletir, mas a palavra que mais me atrae no caso é Ruminar!
Legal neste último comentário você ter dito que "tudo e nada" são a mesma coisa no final das contas. Procede.
Como diz um grande mestre/amigo/guru/poeta meu: "Entre há e não há o melhor é escapar!"
je t'ambrasse.
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